Nos tempos modernos, os cidadãos
de uma grande metrópole devem se habituar a múltiplos aspectos imutáveis da sua
vida cotidiana: pessoas irritadas, correria constante, desgaste
físico-emocional-mental etc. Mais habitual ainda à nossa realidade é, sem
dúvida, a convivência com o risco imediato: cada vez mais habitar uma capital
se torna uma luta interminável por uma segurança que nunca existirá.
Tanto medo enlevou-nos, a nós, a
tal situação que temos medo de tudo e todos, até quanto não temos medo. Veja
que, certa vez, eu circulava pelo centro de Porto Alegre: caminhava por ali
como caminharia qualquer desocupado após horas de extenuante rotina, e vi
aproximar-se de mim, saído dalguma dessas tantas ruelas que cortam o coração da
cidade, um cidadão indesejável, pelos padrões habituais.
Tratava-se de um homem de
estatura mediana e cabelos pretos, pontilhados aqui e acolá por tons de
grisalho; a barba que lhe cobria a face era quase tão longa quanto o cabelo, e
a pele, coberta por uma espessa camada de sujeira, nem sequer podia ser
reconhecida como escura ou clara. Trajava farrapos pretos que, a julgar pelo
estado, deveriam estar sendo vestidos há tanto tempo que se haviam tornado uma
espécie de segunda pele.
Meus olhos preconceituosos de
metropolitano logo o detectaram como uma ameaça. Foi instintivo recuar dois
passos, e mais natural ainda levar a mão ao bolso onde trazia o pouco dinheiro
que tinha em poder. Fosse ilusão minha ou não, parecia-me que as íris do outro,
castanhíssimas – e isso se destacava em meio ao cinzento da sujeira que
recobria sua face -, luziam uma ameaça insana, o puro ódio que alguém do nível
dele poderia sentir de alguém do meu nível.
- Eu não tenho dinheiro. – Disse,
quase instintivamente. O outro pareceu confuso; e ambos ficamos nos olhando,
aturdidos.
Ele, parecendo compreender,
assumiu a mais inesperada das expressões: pareceu profundamente ofendido!
Fiquei ainda mais confuso, enquanto meu algoz perpassava do estado de mágoa
para o de raiva. Quando pensei que ele fosse saltar no meu pescoço e me matar
ali mesmo, no meio de todo aquele povo – e sim, havia pessoas em volta -, ouvi
sua voz, pela primeira vez.
- Não, moço, eu não quero teu
dinheiro – falou com certa raiva, e sua voz soou como se há muito não fosse
usada. Pensei que, talvez, ele não tivesse exatamente muita gente com que
falar. – Quero apenas uma informação.
- O que é? – apesar de meu estado
de choque, pude trazer à minha voz toda a arrogância e superioridade que eu
deveria ter para com ele. A rispidez foi apenas mais um detalhe.
O outro me olhou, frio, quase
cruel. Abriu sua boca ladeada por um emaranhado de barba nunca feita; vi
diversos vazios onde, antes, deveria haver dentes. E aqueles que restavam não
demorariam a seguir o caminho de seus iguais.
- Poderia...me dizer que horas
são?
Autor: Fernando Galvão. 2011
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