terça-feira, 18 de setembro de 2012

Horas de curta aflição


Nos tempos modernos, os cidadãos de uma grande metrópole devem se habituar a múltiplos aspectos imutáveis da sua vida cotidiana: pessoas irritadas, correria constante, desgaste físico-emocional-mental etc. Mais habitual ainda à nossa realidade é, sem dúvida, a convivência com o risco imediato: cada vez mais habitar uma capital se torna uma luta interminável por uma segurança que nunca existirá.

Tanto medo enlevou-nos, a nós, a tal situação que temos medo de tudo e todos, até quanto não temos medo. Veja que, certa vez, eu circulava pelo centro de Porto Alegre: caminhava por ali como caminharia qualquer desocupado após horas de extenuante rotina, e vi aproximar-se de mim, saído dalguma dessas tantas ruelas que cortam o coração da cidade, um cidadão indesejável, pelos padrões habituais.

Tratava-se de um homem de estatura mediana e cabelos pretos, pontilhados aqui e acolá por tons de grisalho; a barba que lhe cobria a face era quase tão longa quanto o cabelo, e a pele, coberta por uma espessa camada de sujeira, nem sequer podia ser reconhecida como escura ou clara. Trajava farrapos pretos que, a julgar pelo estado, deveriam estar sendo vestidos há tanto tempo que se haviam tornado uma espécie de segunda pele.

Meus olhos preconceituosos de metropolitano logo o detectaram como uma ameaça. Foi instintivo recuar dois passos, e mais natural ainda levar a mão ao bolso onde trazia o pouco dinheiro que tinha em poder. Fosse ilusão minha ou não, parecia-me que as íris do outro, castanhíssimas – e isso se destacava em meio ao cinzento da sujeira que recobria sua face -, luziam uma ameaça insana, o puro ódio que alguém do nível dele poderia sentir de alguém do meu nível.

- Eu não tenho dinheiro. – Disse, quase instintivamente. O outro pareceu confuso; e ambos ficamos nos olhando, aturdidos.

Ele, parecendo compreender, assumiu a mais inesperada das expressões: pareceu profundamente ofendido! Fiquei ainda mais confuso, enquanto meu algoz perpassava do estado de mágoa para o de raiva. Quando pensei que ele fosse saltar no meu pescoço e me matar ali mesmo, no meio de todo aquele povo – e sim, havia pessoas em volta -, ouvi sua voz, pela primeira vez.

- Não, moço, eu não quero teu dinheiro – falou com certa raiva, e sua voz soou como se há muito não fosse usada. Pensei que, talvez, ele não tivesse exatamente muita gente com que falar. – Quero apenas uma informação.

- O que é? – apesar de meu estado de choque, pude trazer à minha voz toda a arrogância e superioridade que eu deveria ter para com ele. A rispidez foi apenas mais um detalhe.

O outro me olhou, frio, quase cruel. Abriu sua boca ladeada por um emaranhado de barba nunca feita; vi diversos vazios onde, antes, deveria haver dentes. E aqueles que restavam não demorariam a seguir o caminho de seus iguais.

- Poderia...me dizer que horas são?
Autor: Fernando Galvão. 2011

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente. Lembre que suas palavras podem ser usadas contra ou a favor de você. Deixe seu comentário. =)